ECONOMIA / 09.04.18

Selic poderia voltar a dois dígitos com 'choque eleitoral'

VALOR ECONÔMICO

O cenário de juros baixos no país pode se tornar insustentável caso um candidato pouco comprometido com reformas fiscais seja eleito. A reversão das perspectivas para os ajustes econômicos traria tamanho impacto nos mercados financeiros, principalmente no câmbio, que a Selic voltaria aos dois dígitos já no começo do ano que vem. Essa é a conclusão de um estudo da MCM Consultores Associados.

Conforme esse cenário "pessimista", a taxa básica teria de ser elevada para 10% no primeiro trimestre de 2019, permanecendo por algum tempo nesse nível. Isso representaria um aumento de 3,75 pontos percentuais ante a mínima histórica de 6,25% ao ano, que se espera para a Selic neste ciclo de cortes. Vale destacar que esse cenário alternativo coloca a Selic num nível bem mais elevado que o apontado pelo mercado.

Os juros futuros projetam taxa básica próxima de 7,22% em abril do ano que vem e de 9,17% no encerramento de 2019. As apostas também têm sido afetadas pelas incertezas políticas. Para o curto prazo, a chance de corte da Selic em maio, do nível atual de 6,50% para 6,25%, está em 63%, após tocar 85% há duas semanas.

O principal catalisador de uma piora seria uma disparada do dólar, que teria efeitos inflacionários no país. O dólar sairia de R$ 3,50 em setembro de 2018 para até R$ 4,40 em junho de 2019, diz o estudo. Sem a reação da autoridade monetária, a inflação projetada terminaria o ano que vem em 6,4%, bem distante do centro da meta para o ano que vem, de 4,25%.

Logo, o Banco Central seria forçado a agir para controlar os preços e reduzir as expectativas de inflação. Sob uma atuação mais firme do BC, a inflação voltaria para 4% no fim de 2020, atingido o alvo do ano. A deterioração da economia poderia fazer o novo governo aprovar algumas reformas. "Sem isso, o descontrole fiscal fará a política monetária perder eficácia, gerando impactos profundamente negativos sobre a formação das expectativas de inflação", afirma a MCM Consultores.

O quadro eleitoral ainda é rodeado de incertezas mesmo com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva cada vez mais distante da disputa. O petista é considerado um dos principais riscos à continuidade das políticas econômicas atuais. Por outro lado, os candidatos reformistas, mais "amigáveis" na avaliação do mercado, ainda patinam nas pesquisas de intenção de voto. E a indefinição tende a gerar instabilidade no câmbio, já que a possibilidade de vitória de um candidato com visão econômica fora do tradicional não pode ser desprezada.

"O cenário político continua caótico", na avaliação do Commerzbank. Com a saída de Lula, que liderava as pesquisas, a eleição está mais aberta do que nunca. E o segundo colocado na intenção de votos, segundo as pesquisas, Jair Bolsonaro, "não seria realmente uma alternativa do ponto de vista do mercado financeiro", acrescenta. Com a aproximação das eleições, a volatilidade no câmbio deverá aumentar.

O Commerzbank projeta que o dólar chegará em R$ 3,50 antes das eleições. Ainda assim, o mercado põe suas fichas na vitória de um candidato favorável a reformas na eleição presidencial deste ano. Não se descarta, contudo, a chegada de um "quase reformista". Esses candidatos são aqueles que defendem as reformas, mas levantam dúvidas sobre seu comprometimento ou capacidade de tocar essas pautas no Congresso.

Para a consultoria Eurasia, esse é o caso do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, que já se filou ao PSB. Se confirmada a sua entrada na corrida eleitoral nesta semana, cresce a chance de um candidato "quase reformista" ganhar. A chance atualmente é de 40%, pelos cálculos da consultoria.