ECONOMIA / 26.04.18

Queda do real atrapalha retomada

VALOR ECONÔMICO

A desvalorização da taxa real de câmbio brasileira desde o ano passado - e intensificada nos primeiros meses de 2018 - deve atrapalhar a já frágil retomada econômica. A queda da moeda doméstica, que já alcança 4% ante uma cesta de divisas no ano até abril, deve elevar o custo de capital, com impactos negativos sobre a contratação de investimentos. Isso num momento em que as companhias já veem limitado estímulo para ampliar gastos diante do recrudescimento das incertezas eleitorais.

Analistas reconhecem que um real mais fraco não é totalmente ruim para a economia doméstica. Alguns setores, sobretudo o exportador de bens industriais, se beneficiam de um real mais depreciado na medida em que se tornam mais competitivos no mercado externo.

Porém, para a economia local, as vantagens não vão muito além. Para os exportadores de commodities, por exemplo, o efeito positivo é limitado à renda com as vendas externas, já que os preços dos produtos são determinados pela dinâmica do mercado internacional. E o impacto é negativo para a conta de investimento, a chamada formação bruta de capital fixo.

Como a fatia do investimento no Produto Interno Bruto (16%) é maior do que a parcela das exportações beneficiadas pelo câmbio mais fraco (10%), a conclusão é que uma contínua depreciação do câmbio real tem efeito líquido negativo para o PIB.

Nos cálculos do Santander, uma desvalorização de 10% da taxa real de câmbio reduziria a participação do investimento no PIB em 1,2 ponto percentual ao fim de quatro trimestres. Para o número final do PIB, isso equivale a um crescimento 0,25 ponto percentual menor ao término de um ano. "Uma desvalorização contínua e forte do câmbio real piora confiança, piora o cenário para captações externas, eleva dívida em moeda estrangeira... Ou seja, se torna um elemento bastante desfavorável para a expansão do investimento", diz Adriana Dupita, economista do Santander.

Para ela, o investimento está associado à confiança, que por sua vez se correlaciona com as dinâmicas dos ativos financeiros. Por ora, Adriana mantém estimativa de crescimento do PIB neste ano em 3,2%, mas admite que o viés é "de baixa". Desde fevereiro de 2017 (pico recente), o câmbio efetivo real deflacionado pelo IPA-DI se desvalorizou 15%, segundo dados do Banco Central.

Embora não se considere que a desvalorização corrente da taxa de câmbio reflita uma deterioração expressiva dos fundamentos do Brasil, a queda mais intensa do real comparado a seus pares indica que, no mínimo, investidores entendem que o atual patamar de risco doméstico é condizente com um câmbio mais fraco.

Em 12 meses, o câmbio real brasileiro cai 3,64%, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), que utiliza metodologia diferente da do Banco Central. A queda parece moderada, mas destoa fortemente da valorização de divisas de vizinhos latino-americanos, como peso colombiano (21,36%), sol peruano (6,79%), peso chileno (6,67%) e peso mexicano (4,62%).

A resposta para a pergunta se o câmbio depreciado é expansionista ou contracionista para a atividade vai depender muito da forma como a conta é feita. Mas a literatura mais recente anda na direção de que taxas de câmbio que apreciam tipicamente estão associadas a momentos de maior crescimento econômico, diz Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre- FGV.

Dada a falta de previsibilidade quanto às eleições presidenciais do segundo semestre, o que se percebe é um mercado que entra em "modo espera" até pelo menos outubro. "E isso é um sintoma de que momentos difíceis podem estar à frente", diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Vale acredita que a economia deverá sentir essa maior incerteza que afeta o câmbio porque os elementos que abalam a confiança - como os riscos de guerra comercial no exterior, juros mais altos lá fora e falta de convicção nas reformas econômicas locais - persistirão até as eleições. "O que me preocupa mais é que a desvalorização do câmbio e seus desdobramentos vistos até agora podem ser aprofundados com o resultado eleitoral. Aí teremos um sinal claro de que algo está bem errado", afirma.

José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre-FGV, concorda que a alta do dólar é uma má notícia para a retomada da economia porque reflete a piora das expectativas dos agentes econômicos. "O aumento do risco mexe com a bolsa, com os juros e com o câmbio", afirma. "Assim, por definição, a depreciação cambial não pode ser algo bom para a economia."

O economista ressalta que há uma corrente que defende que a depreciação do real favorece a retomada da atividade por melhorar a competitividade das exportações brasileiras. "Mas eu tendo a dar mais importância às expectativas O estado de espírito mobiliza os recursos para os fins produtivos. O desconforto está aumentado e essa é a grande ameaça."

Senna lembra ainda que foi o exterior que contribuiu, em grande medida, para que o Banco Central conduzisse o ciclo de alívio monetário em curso. "Não seria possível ter uma queda do juro real para 2,2% se não fossem esses ventos externos", afirma.

"Agora que as condições estão piorando, o risco é que o câmbio dificulte também a política monetária, que foi o único instrumento usado para estimular a economia." Quanto ao câmbio, não há nada que o Banco Central possa fazer. "Seria dar murro em ponta de faca."