ECONOMIA / 08.02.18

Para economistas, só Previdência e queda acentuada da inflação levam a outro recuo

VALOR ECONÔMICO

O Banco Central deu um sinal claro de que o ciclo de alívio monetário foi encerrado ontem com o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, que levou a taxa básica brasileira a 6,75%, na avaliação de economistas ouvidos pelo Valor. A menos que ocorra um evento inesperado até a próxima reunião - como a aprovação da reforma da Previdência ou um recuo mais acentuado da inflação - a Selic deve continuar em 6,75%.

Para o economista-chefe do Safra, Carlos Kawall, uma mudança de cenário poderia ser provocada caso a reforma da Previdência seja aprovada ainda este ano. No entanto, ele atribui uma probabilidade de 30% para a aprovação da reforma. "Já estamos numa taxa abaixo do neutro, a atividade está numa tendência positiva e paramos de ter surpresas inflacionárias. Embora a inflação esteja bem tranquila, já não é mais aquela moleza toda", afirma.

O economista-chefe da Mauá Capital, Alexandre de Ázara, alertou que o BC poderá ser surpreendido com uma inflação mais baixa na próxima reunião, o que poderá levá-lo a cortar a Selic em mais 0,25 ponto. Ele diz que sua projeção para o IPCA no trimestre encerrado em fevereiro vai ficar 0,30 ponto abaixo do que o BC prevê, de 1,30%. "Se essa surpresa não se confirmar, então o ciclo terá terminado."

Para a economista sênior do Santander, Tatiana Pinheiro, o Copom deixou "bem claro" que o ciclo de alívio monetário está encerrado, com a Selic em 6,75%. E, ainda que tenha mencionado a possibilidade de voltar a mexer na taxa caso o balanço de riscos se altere, é reduzida a probabilidade disso ocorrer.

O sócio da 4E Consultoria, Juan Jensen, lembra que o BC deixou aberta uma possibilidade de redução adicional se o cenário continuar a evoluir favoravelmente. Para Jensen, nas entrelinhas, esse trecho do comunicado considera uma remota possibilidade de aprovação da reforma da Previdência, o que poderia reduzir a taxa de juros neutra. "Aí, o Banco Central estaria mais confortável para uma redução adicional."

O sócio-gestor da Rosenberg Investimentos, Marcos Mollica, acredita que o aumento da volatilidade externa não teve influência na decisão de ontem. "Esse plano de voo já está definido faz tempo e o BC tem enfatizado que o cenário externo tem se mostrado favorável às economias emergentes", disse. Kawall, do Safra, também destaca que o Copom trata o cenário internacional ainda como benigno.

Dessa forma, não é possível atribuir a esse quadro a decisão do BC de parar de cortar o juro. "Foi uma correção muito rápida se comparada a outros episódios em que havia um problema real, como alta de inflação ou crise financeira." A Tendências Consultoria estima a manutenção da Selic em 6,75% ao ano durante 2018. "O Copom pode começar um novo ciclo de aperto monetário só na primeira reunião de 2019", afirma Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências.

Conforme a diretora da Tendências, o juro real atual se encontra bem abaixo da taxa de equilíbrio, o que se configura em uma política monetária estimulativa. "Em 2019, não se trata de apertar a política monetária, mas colocar [a taxa básica] mais em linha com a neutralidade."

No cenário do Santander, o Banco Central só volta a subir os juros no segundo trimestre de 2019. Isso porque, até lá, a economia poderá estar crescendo no seu potencial e o Copom terá que levar o juro para o ponto neutro. A mesma visão é partilhada pela 4E Consultoria. Já a Rosenberg considera em suas projeções a possibilidade de o Copom voltar a elevar a taxa básica no início do próximo ano.

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