INDÚSTRIA / 05.03.18

Países temem que Trump peça reciprocidade tarifária

VALOR ECONÔMICO

Depois da imposição por Donald Trump de sobretaxas às importações de aço e alumínio, o sentimento na cena comercial internacional é de que os EUA não vão parar por aí e adotarão novas ações unilaterais. Após o desafio de Trump aos outros países, de que "guerra comercial é boa e fácil de vencer"', negociadores identificam em twitter do presidente dos EUA o que poderá ser uma nova imposição: a exigência de "reciprocidade tarifária".

Por ela, Trump visaria forçar um país a aplicar as mesmas alíquotas pelas quais exportam para os EUA. Ou seja, se o Brasil paga tarifa baixa de 2,5% para exportar carros aos EUA, terá de permitir a entrada de carros americanos com essa mesma tarifa, em vez dos 35% cobrados atualmente pelo país.

Ocorre que as alíquotas que vigoram atualmente no comércio internacional são resultado de duras negociações, com as concessões envolvendo diferentes setores, algo que Trump visivelmente não faz questão de entender. A imposição de taxa adicional de 25% nas importações de aço e de 10% nas de alumínio tem um enorme simbolismo, mas essas importações só representam 2% do total comprado no exterior pelos EUA e envolvem apenas 0,1% do total de empregos no país.

Já "reciprocidade tarifária" poderá levar a um máximo de tensão na economia global, se Trump for adiante com a ideia. Nada disso é descartado na cena comercial em Genebra diante do comportamento de Trump, qualificado de "bullying" (intimidador). A constatação é que o presidente americano não tem limite nem constrangimento e acha que pode impor a sua vontade porque considera ser mais forte que o resto do mundo e que pode sair ileso. Se a comunidade internacional não reagir de forma unida, Trump vai fazer uma ação unilateral atrás da outra, avalia um importante negociador comercial.

Ele estima que a resposta dos países tem de ser coletiva. Ou seja, não adianta salamaleques diplomáticos nem correr a Washington para argumentar que suas exportações não prejudicam a indústria americana e que o problema é a venda de outros países. Como o Valor Pro revelou na quinta-feira, países exportadores tem discutido uma coalizão para reagir a Trump.

Mas alguns são mais incisivos que outros: a União Europeia (UE) acena com retaliação a produtos americanos que vêm de Estados importantes para congressistas republicanos, por exemplo. Autoridades chinesas sinalizam, em conversas informais, que sabem precisamente como retaliar, principalmente para atingir o setor agrícola americano.

Também o Canadá e o México ameaçam retaliar, ainda mais porque alegam que compram mais aço dos EUA do que exportam para o mercado americano. O Brasil, segundo maior exportador de aço para os EUA (13,2% do total importado pelos EUA), diz aguardar os detalhes da decisão americana. O fato é que o país tende a sofrer prejuízos, e não apenas no mercado americano.

Na sexta-feira, a UE avisou que pode impor suas próprias restrições à importação de aço e alumínio, para "reequilibrar a situação" no mercado, depois do anúncio das tarifas dos UA. "A Comissão Europeia vai monitorar os desenvolvimentos do mercado e, se necessário, vai propor ação de salvaguarda compatível com a OMC para preservar a estabilidade do mercado europeu", afirmou a comissária europeia de Comércio, Cecilia Malmström. Um país membro da OMC pode tomar ação de "salvaguarda", como diz a comissária, para restringir a importação de um produto temporariamente, por exemplo aplicando sobretaxas.

Para os europeus, à medida que Trump fecha o mercado dos EUA, os exportadores buscarão outros mercados para exportar, baixando os preços, e podem inundar a Europa. O plano da UE reflete o efeito dominó que uma guerra comercial provoca, em que uma peça bate na outra e vai caindo sobre a seguinte -o que acaba reduzindo o fluxo de comércio e desacelerando a economia global.