INDÚSTRIA / 07.02.18

Pacote para indústria 4.0 vai ser lançado em março

VALOR ECONÔMICO

O governo pretende anunciar, na primeira quinzena de março, um plano que buscará acelerar a migração de empresas ao modelo de "indústria 4.0" no país. A intenção é disseminar o uso de tecnologias avançadas como inteligência artificial, impressões 3D, computação em nuvem e internet das coisas (chips embarcados em produtos) no chão de fábrica. Pelo menos cinco setores devem ser contemplados inicialmente: agronegócios, automotivo, têxtil, defesa e saúde (equipamentos médicos).

Novas linhas de financiamento estão sendo estudadas pelo governo com bancos públicos para estimular mudanças nos processos produtivos. "Em um primeiro momento, teremos que priorizar. E a prioridade serão os setores em que o Brasil já demonstra capacidade de liderança global", afirma o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Guto Ferreira, um dos responsáveis pela estruturação do plano.

Ele faz uma ressalva: a definição dos setores ainda não está completamente fechada e caberá ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Ferreira antecipa que haverá requisitos claros às empresas interessadas em obter crédito para implantar conceitos da indústria 4.0. Elas deverão ser submetidas a "testes de maturidade" apontando o grau de desenvolvimento tecnológico em que se encontram atualmente. A realização dos testes ficará por conta das próprias companhias, mas uma parte delas poderá ser bancada pela ABDI.

A agência, alimentada por recursos do Sistema S, pretende alocar R$ 5 milhões para isso e publicará editais de seleção. Estudos preliminares conduzidos pelo governo para a elaboração do novo plano indicam que entre 2% e 5% das fábricas brasileiras adotam conceitos da indústria 4.0. Eliminando erros humanos e aumentando a produtividade, pode-se obter uma economia de R$ 73 bilhões ao ano no setor apenas com eficiência energética, segundo projeções. "É uma transformação completa nos processos produtivos", afirma Ferreira.

O plano deve ser lançada durante a edição latino-americana do Fórum Econômico Mundial, que ocorre nos dias 13 a 15 de março, em São Paulo. Não foi uma escolha aleatória. Em seus encontros anuais, na cidadezinha alpina de Davos, o fórum tem sido um dos principais catalisadores de discussões sobre as mudanças trazidas pela chegada da quarta revolução industrial e o suíço Klaus Schwab - fundador da organização - converteu-se em um dos grandes pensadores internacionais sobre o tema.

Os alertas são preocupantes para quem não estiver devidamente preparado. No período de cinco anos compreendido entre 2016 e 2020, o fórum prevê uma perda líquida de cinco milhões de empregos no planeta com a automação gerada pela indústria 4.0. O Brasil figura ao lado de África do Sul, da Itália e do Sudeste Asiático na lista de países e regiões em que se projeta um impacto predominantemente negativo no mercado de trabalho. O retrato atual já desperta inquietações.

Uma pesquisa da consultoria Deloitte, que ouviu 1.603 executivos no mundo e 102 especificamente no Brasil, sugere que essas inovações ainda podem estar distantes. Em uma das perguntas feitas, apenas 29% dos líderes empresariais brasileiros dizem estar utilizando "tecnologias de ponta" para possibilitar que seus funcionários sejam mais eficientes. A média global é de 47%.

Outras respostas do questionário mostram uma discrepância entre a percepção dos executivos no Brasil e no exterior. Por aqui, 49% acreditam que as habilidades exigidas de seus profissionais vão evoluir muito mais rapidamente. Lá fora, são 56%. Em contrapartida, 98% dos brasileiros avaliam que estão fazendo tudo possível para adequar sua força de trabalho às necessidades da quarta revolução industrial. A média global é 86%.

Para Ronaldo Fragoso, sócio-líder na Deloitte, há um "descolamento" das percepções sobre indústria 4.0 no Brasil e nos demais países. Muitos, por exemplo, devem se convencer de já estarem no caminho adequado por desconhecimento de todas as oportunidades dessas novas tecnologias. Em meio ao temor de desemprego e de instabilidade com essas mudanças, Fragoso destaca o fato de 93% dos entrevistados brasileiros manifestam otimismo e veem impactos positivos.

Na avaliação dele, a indústria brasileira vinha tendo poucas chances de pensar sobre incorporação das novas tecnologias e modernização dos processos por causa das dificuldades econômicas. "Era difícil fazer investimentos para acelerar essa transição [à indústria 4.0] com dois ou três anos de recessão. Agora, com a melhoria do ambiente econômico, isso volta à pauta das empresas", observa. A melhor contribuição do governo, diz Fragoso, é se empenhar na oferta de infraestrutura adequada (como telecomunicações de qualidade e terminais portuários e aeroportuários).