ECONOMIA / 08.11.18

Mercados perdem vigor à espera de reformas fiscais do governo

VALOR ECONÔMICO

O mercado esfriou. Depois de terem surfado uma onda de otimismo em outubro, os investidores navegam agora com preocupação com a capacidade do novo governo de implantar as reformas prometidas, o que explica a piora do desempenho na bolsa, no câmbio e nos juros nos primeiros pregões de novembro. Os negócios, agora, são marcados por uma ansiedade com a realização das reformas, e o avanço dessa agenda é o que vai garantir a continuidade do "rali" dos ativos locais daqui para frente.

O Ibovespa encerrou em queda de 1,08%, voltando ao nível dos 87 mil pontos (87.714 pontos). O pregão foi mais uma vez marcado por um forte giro, de R$ 11,7 bilhões, com a maioria das ações ligadas à cena doméstica voltando ao vermelho. Já o mercado de moedas enfrentou uma sessão de instabilidade e um sinal de alívio só veio nas horas finais do pregão. O dólar subiu até R$ 3,7878 na máxima do dia, mas reverteu a direção e fechou em baixa de 0,53%, a R$ 3,7384.

De um lado, os fundos locais já estão bem posicionados em bolsa, depois de terem sido os principais responsáveis pela euforia de outubro, mês em que o Ibovespa renovou recorde e acumulou alta de 10%, enquanto o dólar caiu 7,80%. Agora, com um caixa grande já alocado em ativos domésticos, novas entradas vão depender mesmo da agenda de reformas. De outro lado, os estrangeiros aproveitaram outubro para embolsar lucros, com a piora do cenário internacional.

Lá fora, o ambiente vem sendo marcado pelas preocupações com o crescimento global, com a escalada de tensões comerciais entre economias grandes e com a alta de juros nos países desenvolvidos. A combinação foi explosiva: o estrangeiro retirou R$ 6 bilhões da bolsa em outubro, segunda maior saída mensal do ano, uma tendência que persiste nos primeiros pregões de novembro. A busca por proteção não atingiu apenas o mercado de ações, como também fez o real ter, desde o segundo turno das eleições, um dos piores desempenhos na comparação com outros emergentes, melhor apenas que o peso mexicano.

É por isso que, seja para os estrangeiros seja para os fundos locais, só expectativa não basta agora: o discurso reformista tem que virar realidade e sair do papel. "As coisas não melhoraram, mas também não pioraram. As coisas estão paradas", afirma Ari Santos, gerente da mesa de operações da H.Commcor. A ausência de anúncios concretos também abre espaço para ruídos. Ontem, rumores deram conta de que Ilan Goldfajn poderia deixar a presidência do Banco Central, antes mesmo do período de transição. No entanto, conforme apurou o Valor, Ilan não deu resposta à sondagem do governo eleito. Enquanto isso, outros nomes são ventilados para ocupar a cadeira.

Para Marcelo Giufrida, sócio e gestor da Garde Asset Management, a definição do quadro eleitoral ajudou a reduzir o risco-país e, consequentemente, a taxa de câmbio, mas uma melhora mais "contundente" depende de avanços na agenda de reformas. "Daqui para frente, depende da administração de Jair Bolsonaro, que não começou ainda", diz.

Na bolsa, as quedas se espalharam por diversas ações, inclusive aquelas que vinham subindo com o otimismo que se viu ao longo da corrida eleitoral. É o caso das estatais Banco do Brasil (-2,40%), Petrobras ON (-2,21%), Petrobras PN (-3,27%), Eletrobras ON (-4,28%) e Eletrobras PNB (-3,54%). Entre as varejistas também houve baixas, como as queridinhas do setor Magazine Luiza (-4,79%) e B2W (-4,32%). "O mercado precisa ganhar confiança de que uma forte reforma previdenciária será aprovada em um futuro próximo", diz o estrategista Mario Castro, do Nomura.

"Podemos esperar que o real e os juros futuros retornem ao modo de rali se o governo de Bolsonaro se mover na direção de aprovar a reforma. Enquanto o mercado aguarda tal confirmação é provável que continue a ver alguma consolidação em ambos os ativos", acrescenta. Um dos melhores termômetros de risco do mercado, os juros de longo prazo ainda não conseguiram replicar o rali de outubro. No mês passado, a taxa do DI para janeiro de 2025 saiu de 11,75% para 9,85%.

Desde o segundo turno das eleições presidenciais, no entanto, a taxa se manteve praticamente estável. E se não bastassem as incertezas locais, os ventos do exterior tem soprado contra os emergentes. Para o presidente da GPS Investimentos, Jan Karsten, o real brasileiro ainda tem potencial de valorização à medida que a administração Bolsonaro começa a ter conquistas mais concretas, mas os riscos externos já alteraram a dinâmica do mercado de câmbio. "O piso do dólar já mudou por causa da dinâmica externa. Não é mais R$ 3,10 ou R$ 3,15. Agora é R$ 3,50 ou R$ 3,55", aponta.

Com a perspectiva de desaceleração da economia global e um ambiente de menor liquidez, o investidor estrangeiro vai se voltar justamente para outros mercados cujo ciclo da atividade esteja em ascensão - o que coloca o Brasil em evidência, caso a agenda de reformas de fato avance. A perspectiva é de Eduardo de la Peña, diretor de mercado de capitais do Credit Suisse.

Ao Valor, ele afirma que o Brasil já teve uma relevante melhora da confiança e das expectativas em relação à continuidade na agenda de reformas, mas ainda não voltou para um ciclo de crescimento expressivo, que segue represado. Isso significa que há bases para uma robustez na recuperação da atividade local conforme o novo governo se comprometa com uma gestão fiscalmente responsável.

Esse é o principal aspecto que o estrangeiro deve acompanhar para voltar a se alocar em ativos brasileiros. Esse processo deve ocorrer de forma gradual, mas existem perspectivas otimistas já para os próximos meses. "O estrangeiro vai observar primeiro qual o reflexo das reformas sobre a economia, a capacidade ociosa do Brasil, se a atividade voltou a crescer. Se o país experimentar um bom ciclo de crescimento, mesmo que leve um tempo, o estrangeiro vai priorizar o nosso mercado", afirma.