ECONOMIA / 07.05.18

Mercado volta a elevar estimativas para o dólar com piora de cenário

VALOR ECONÔMICO

Menos de um mês após a última rodada de revisões para cima nas estimativas para o dólar, o mercado financeiro assiste a uma deterioração no cenário para a taxa de câmbio. Algumas casas já reviram prognósticos, enquanto outras estão em processo de ajuste. E mesmo aquelas que mantêm as expectativas admitem que cresceu o risco de um dólar ainda mais forte.

O resultado é que um maior número de cenários alternativos passou a considerar a probabilidade de a taxa de câmbio voltar aos R$ 4 ou mesmo superar essa marca, visitada pela última vez em março de 2016. "O risco de cenários de estresse nos quais o dólar teste novas máximas históricas próximas de R$ 4 aumentou consideravelmente", diz Gustavo Rangel, economista-chefe do Banco ING em Nova York.

Rangel recentemente aumentou para R$ 3,70 sua estimativa para o câmbio médio no terceiro trimestre do ano, período que antecede as eleições. Segundo o economista, o dólar a R$ 4 "seria o caso" num cenário em que um candidato "claramente hostil" à agenda de reformas assuma a liderança nas pesquisas de intenção de voto à Presidência da República. Por ora, a maioria dos cenários não contempla dólar muito acima de R$ 3,50.

O Bank of America (BofA) aumentou sua projeção para o fim de 2018 de R$ 3,32 para R$ 3,52. O Bradesco elevou a estimativa de R$ 3,20 para R$ 3,35. O Itaú Unibanco, que oficialmente ainda trabalha com a taxa de R$ 3,25 ao fim do ano, está em processo de revisão de cenário, assim como o UBS. As mudanças são baseadas na força do dólar no mundo, diante do aperto das condições monetárias nos EUA.

E se as questões externas têm peso relevante na alta da moeda americana, aqui a pressão poderá ser intensificada à medida que se aproximam as eleições presidenciais, tradicionalmente um injetor de volatilidade. Os ajustes nas projeções ocorrem depois de um turbulento mês de abril para o real, em parte ditado pela ressurgência global do dólar. Na semana passada, a moeda americana chegou a ser negociada por R$ 3,5667, maior valor em cerca de dois anos.

O dólar acumula alta de 12,52% desde 25 de janeiro, quando marcou a mínima do ano. Isso coloca o real na lanterna numa lista de 12 moedas emergentes. Mesmo uma taxa acima de R$ 4 "não é absurda" num contexto em que a agenda de reformas fica ainda mais ameaçada, na visão de Izak Benaderet, diretor da Porto Seguro Investimentos, integrante do Top 5 de câmbio do Banco Central.

O risco eleitoral é tamanho que acaba se sobrepondo aos fundamentos da taxa de câmbio, considerados bons pelos analistas. As reservas internacionais seguem em torno de US$ 380 bilhões, o déficit em transações correntes uma medida da vulnerabilidade externa - está nas mínimas da década, e o Banco Central segue com amplo poder de fogo para atuar no mercado cambial, a exemplo do que começou a fazer na semana passada.

Esse conjunto de fatores, teoricamente, daria espaço para o real demonstrar "bom desempenho" nos próximos meses, segundo Mario Schalch, sócio e gestor responsável pelas estratégias de moedas dentro de fundos multimercados da Neo Investimentos - e também Top 5 de câmbio. Mas o provável aumento da incerteza política "dificilmente" deixará o real apresentar boa performance até dezembro.

"Achamos mais provável que, no fim do ano, o dólar não esteja em R$ 3,50. A depender do resultado eleitoral, estará ou 10% abaixo ou 10% acima." Isso significa que, no cenário de Schalch, a moeda americana oscilará entre R$ 3,15 e R$ 3,85. A despeito da piora das estimativas, a grande maioria das instituições consultadas ainda prevê que o dólar termine o ano em patamar mais baixo que o atual. Mesmo elevando sua projeção, o Bradesco ainda enxerga a moeda em R$ 3,35 ao fim de dezembro.

O banco diz que a depreciação cambial não tem sido acompanhada de piora "significativa" do risco-país ou dos preços dos demais ativos financeiros. E isso "sugere que o movimento, até os patamares atuais, deriva desses eventos de curto prazo". O Bradesco espera que a retomada econômica amenize o efeito negativo no câmbio vindo da queda do diferencial de juros americanos e local à mínima.