ECONOMIA / 12.09.18

Mercado se prepara para lidar com cenário de disputa entre extremos

VALOR ECONÔMICO

Falta pouco menos de um mês para a eleição e, aos poucos, o cenário mais temido pelo mercado financeiro vai ganhando força. Geraldo Alckmin (PSDB), o preferido dos investidores por seu discurso reformista, continua patinando, enquanto os candidatos de perfil esquerdista Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT) avançam, ganhando fôlego para enfrentar Jair Bolsonaro (PSL), líder nas pesquisas de intenções de voto, no segundo turno.

Mesmo considerando que o alto índice de indecisos nas pesquisas abre espaço para reviravoltas nesse quadro, o mercado já se prepara para lidar com uma disputa entre dois radicais. O dólar perto dos R$ 4,10 contempla parcialmente esse risco.

Mas, caso Haddad ou Ciro seja confirmado no segundo turno — probabilidade que não pode ser descartada, dado o avanço mostrado pelos candidatos na pesquisa Datafolha ontem —, a moeda pode engatar altas adicionais. Já uma surpresa vinda do crescimento de Alckmin, que está praticamente estável, poderia derrubar a cotação para baixo dos R$ 3,50, segundo estimativas do mercado. Isso porque o tucano hoje “não está no preço”.

O nome de Fernando Haddad ainda é o que mais assusta o mercado, ao ser considerado um nome cada vez mais provável na disputa de segundo turno com Bolsonaro, que lidera o pleito com 24% das intenções de voto na pesquisa de ontem do Datafolha, a primeira a medida os efeitos do atentado ao candidado do PSL . Mesmo com 9% — atrás de Ciro, com 13%, Marina Silva (Rede), que tem 11% das intenções de voto, e de Alckmin (10%) —, é considerado competitivo, porque sequer foi oficializado como candidato, o que abre espaço para herdar os votos de Lula, afastado oficialmente do pleito pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Na pesquisa de ontem, Haddad foi ainda o nome que apresentou maior crescimento, ao sair de 4% no levantamento anterior, realizado nos dias 20 e 21 de agosto. Ciro também avançou, ao partir de 10%, assim como Bolsonaro cresceu 2 pontos e Alckmin, 1 ponto (ambos dentro da margem de erro). Já Marina perdeu terreno, uma vez que tinha 16% das intenções de voto em agosto.

Vale destacar que, dos candidatos com maior pontuação nas pesquisas, Haddad tem um dos menores índices de rejeição (22%), perdendo apenas para Ciro, com 20%. Bolsonaro, além de ter a maior reprovação, viu seu índice de rejeição subir na última pesquisa do Datafolha, de 39% para 43%.

Com um programa econômico heterodoxo, que tem por objetivo gerar emprego, renda e crédito, com injeção de recursos públicos e reforma bancária, e relativiza a necessidade de reformas, se o candidato do PT continuar mostrando avanço nas pesquisas, também a temperatura nos mercados deve subir, trazendo ainda mais volatilidade aos preços. Mas, à boca miúda, o que alguns experientes analistas de mercado enxergam é a chance de o petista ajustar seu discurso após o primeiro turno e migrar para uma postura mais liberal.

Essa é a impressão que gestores e economistas passaram a ter após encontros privados com o candidato — chamado de “o mais tucano dos petistas”. E é endossada por declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que, num eventual confronto contra Bolsonaro, o PSDB deve apoiar Haddad.

A questão é que, hoje, o dado concreto é um discurso que vai na contramão de tudo o que o mercado considera fundamental para que a economia, enfim, volte para os trilhos. Além da isenção de imposto de renda para os que recebem até cinco salários mínimos, o programa prevê a ampliação de financiamento por parte dos bancos públicos e a reversão de medidas como o teto de gastos e a reforma trabalhista. Também defende um regime de câmbio “mais estável” e a revisão do sistema de metas de inflação, além do uso de US$ 40 bilhões das reservas internacionais para financiar a infraestrutura.

Na visão do mercado, seria uma gestão mais comparável à de Dilma Rousseff do que à de Lula: um governo de ruptura. Essas medidas têm sido amplamente defendidas pelos economistas que assessoram a chapa petista, entre eles o jovem Guilherme Mello, hoje um dos principais porta-vozes do programa petista.

Mas, para participantes do mercado, não se pode descartar a possibilidade de Haddad moderar o discurso ainda antes de um eventual segundo turno. “Ele sabe que precisa ter um compromisso fiscal e mostrar ideias muito mais equilibradas”, relata um economista que participou de um encontro com o petista. “Eu tenho convicção de que ele vai mudar o discurso logo depois do primeiro turno, mesmo correndo o risco de ser muito pressionado pelo partido. Mas isso não significa que o mercado irá dar a ele o benefício da dúvida: o estresse vai ser enorme”, diz o gestor de um fundo de investimentos.

O que Haddad enfrentaria, nesse cenário, seria um quadro de extrema turbulência, que exigiria do candidato uma ação ainda mais efetiva do que foi a Carta ao Povo Brasileiro, escrita por Lula com o objetivo de tentar pacificar o mercado financeiro nas eleições de 2002. “Na ocasião, tudo o que Lula precisava era dizer que não faria bobagem, porque a situação fiscal estava organizada. Já Haddad teria que trazer medidas concretas e rápidas para corrigir o quadro fiscal, o que é um grande desafio”, diz um gestor.

Para limitar o clima de nervosismo, Haddad precisaria, por exemplo, anunciar imediatamente nomes mais liberais para integrar sua equipe econômica. Parece uma decisão improvável, dado o compromisso assumido com o PT na campanha. “Algum estelionato vai ter que haver”, diz um economista. Ele afirma que não seria fácil encontrar nomes de mercado dispostos a trabalhar num governo do PT. “Mas acho que a surpresa positiva pode vir de Haddad, não de Bolsonaro.”

Dada a vantagem que o candidato do PSL tem em relação a seus adversários, o mercado tem feito um certo exercício de aceitação. O nome de seu assessor econômico, o liberal Paulo Guedes, ajuda nesse desafio. Ele defende um programa econômico com ênfase no ajuste fiscal, o que faz dele hoje uma alternativa possível, caso o pleito tenha que ser definido entre ele e outro candidato mais à esquerda.

Mas é consensual que Bolsonaro é uma grande incógnita, sobretudo quando se pensa em capacidade de execução. “Ele é um ser político? Não sabemos”, diz um gestor. Além disso, há dúvidas sobre a real autonomia que Guedes contaria num governo de Bolsonaro, especialmente considerando-se que ambos são conhecidos por ter um temperamento forte. Nesse sentido, a experiência do governo Dilma, que trouxe Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, reforça a preocupação.

Levy trouxe uma melhora imediata no nível de confiança do mercado, que se perdeu em alguns meses, à medida que ele não conseguiu implementar as medidas de ajuste fiscal que defendia. “Acho que Bolsonaro contaria com o benefício da dúvida, mas acho que esse efeito positivo não duraria”, afirma um gestor.

Ciro Gomes é outro nome que gera muita tensão entre investidores. Embora tenha um discurso também fiscalista, referendado por seu assessor econômico, Mauro Benevides, Ciro defende também medidas consideradas populistas. Uma delas é a promessa de oferecer um mecanismo de tirar o consumidor do SPC, o que passaria pelo uso dos bancos públicos. Também propõe um duplo mandato para o Banco Central — de inflação e emprego —, o que sugere menor autonomia para a autoridade monetária. E fala em buscar um nível de câmbio que estimule a economia, o que arranharia o regime de câmbio flutuante.

Por fim, Marina Silva é vista como uma alternativa mais equilibrada. Tem uma postura firme em termos fiscais, reconhece a necessidade de reforma da Previdência, tem assessores respeitados pelo mercado e boa interlocução com empresários e setor financeiro. Mas, além da dificuldade em crescer nas pesquisas — na verdade, ela vem dando sinais de fraqueza —, o mercado também vê na candidata o risco de execução. “Ela nunca foi testada num cargo executivo e isso gera insegurança”, diz um gestor.