ECONOMIA / 06.12.18

Economia global está forte, mas fissuras começam a aparecer, vê Fitch

VALOR ECONÔMICO

A economia mundial continua sólida, mas algumas rachaduras já começam a aparecer no cenário, sob a forma de uma decepção com o crescimento da zona do euro, diminuição do comércio mundial e desaceleração chinesa.

A análise é do “Panorama Econômico Global” de dezembro, publicado pela agência de classificação de risco Fitch nesta quarta-feira (5).

O primeiro ponto de destaque é a diferença da dinâmica de crescimento das três maiores economias mundiais –Estados Unidos, China e zona do euro. A Fitch vê expansão para os EUA na comparação anual, mas desaceleração nos dois últimos.

Segundo a agência, os EUA crescerão 2,9% neste ano, alta em relação aos 2,2% de 2017. Em 2019, a expansão americana deve ser de 2,6%, e, em 2020, de 2%.

Na zona do euro, o crescimento será de 1,9% neste ano, e desacelera para 1,7% em 2019 e 1,6% em 2020. Parte da desaceleração se deve a fatores temporários, como interrupções em produções automobilísticas com a introdução de novos padrões de emissões.

Também tem relação com a escalada nas tensões comerciais globais, que impactaram a confiança de empresas.

No entanto, as tensões entre Itália e Comissão Europeia por causa da política fiscal italiana elevaram as incertezas e os riscos para o crescimento da zona do euro, ao elevar as chances de uma fragmentação da área de moeda única caso a Itália decida deixar o grupo.

Já a China cresce 6,6% em 2018 e 6,1% nos próximos dois anos, prevê a Fitch. A desaceleração, indica, até agora foi provocada por fatores domésticos, liderada por um enfraquecimento no investimento em infraestrutura em resposta a um aperto no financiamento.

Com essa diferença, a atuação dos bancos centrais dos EUA e da Europa será marcadamente distinta. Nos EUA, o sólido mercado de trabalho vai permitir que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) continue elevando os juros, apesar de um cenário externo mais adverso.

O Banco Central Europeu, contudo, só deve normalizar sua política monetária a partir de 2020, diante do crescimento mais fraco da zona do euro e a inflação ainda em patamares muito baixos, diz a agência.

Os dois fatores combinados devem servir de apoio ao dólar e manter a pressão sobre os mercados emergentes.

A Fitch trabalha com um cenário de desaceleração do crescimento global em 2020, conforme se dissiparem os efeitos do corte de impostos promovido pelo governo de Donald Trump neste ano.

Ainda assim, há riscos, entre eles a piora das condições financeiras globais conforme a liquidez injetada pelos bancos centrais seca e uma escalada nos temores de investidores com uma fragmentação da zona do euro.

O protecionismo, complementa a agência, se mantém como outro perigo à economia mundial, apesar de, recentemente, EUA e China terem ajudado a aliviar as preocupações com uma trégua momentânea na guerra comercial.

A economia global deve crescer 3,3% neste ano, mas moderar a expansão para 3,1% em 2019. Em 2020, a agência vê avanço de 2,9%, com melhora do crescimento de emergentes, em especial a recuperação da Turquia e aceleração do Brasil.

Para o país, a perspectiva é de crescimento de 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano, 2,2% em 2019 e 2,7% em 2020.

A agência indica que a demanda externa e a melhora das incertezas políticas levem a uma recuperação econômica gradual nos próximos dois anos.

“A reação positiva do mercado ao resultado das eleições poderia transmitir grande confiança e ser positivo para as tendências de investimento em 2019”, afirma a agência.

Apesar disso, uma melhora maior do crescimento dependeria parcialmente da agenda econômica do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

“Embora a próxima Administração apoie uma agenda amplamente amigável ao mercado, ainda continua havendo uma incerteza sobre quão bem-sucedida será em pressionar por medidas fiscais impopulares em um Congresso fragmentado”, indicou.

Segundo a Fitch, a decepção com a agenda de reforma econômica é o maior risco doméstico para a confiança e atividade do Brasil.

Do lado externo, as condições de financiamento mais restritas, o menor preço de commodities e a contração econômica da Argentina aparecem como os maiores riscos.