ECONOMIA / 09.02.18

Dúvida sobre juro menor persiste apesar de aposta do mercado

VALOR ECONÔMICO

Apenas um dia depois de o Banco Central indicar claramente o fim do ciclo de afrouxamento monetário, o mercado financeiro foi na direção contrária e reforçou apostas de corte dos juros em março. Analistas, no entanto, veem certo exagero nessa empolgação e citam como fatores a limitar juro mais baixo dúvidas sobre uma inflação continuamente em queda e a onda de volatilidade nos mercados internacionais.

Após o sinal do BC, o Itaú Unibanco revisou sua estimativa para a Selic, passando a ver taxa de 6,75% ao fim de 2018, contra expectativa anterior de 6,50%. E o Bradesco avalia que a indicação do Comitê de Política Monetária (Copom) reforça a ideia de fim do ciclo. Enquanto o debate sobre o rumo da Selic em março segue em aberto - apesar da indicação do Copom de término do ciclo de queda dos juros -, o que parece mais de acordo entre analistas é a maior chance de o juro básico não subir ao longo do ano. "Ainda há prêmio de risco, mas ele está diminuindo", diz Pedro Barbosa, estrategista de renda fixa da Renascença. Isso explica a firme queda ontem da taxa de juro com vencimento em janeiro de 2019, de 6,79% para 6,725%.

Alguns analistas lembram a possibilidade de o Brasil voltar a registrar safra recorde de alimentos. A componente alimentação, que junto com bebidas responde por um quarto do IPCA cheio, seria a principal âncora para a queda adicional da inflação nesse cenário. E já no IPCA de janeiro os preços desse grupo surpreenderam com alta menor que a esperada. Por outro lado, outra corrente entende ser baixo o risco "benigno" de um choque favorável nos preços dos alimentos.

E também questiona a disposição do BC em reagir a uma surpresa nessa componente, uma vez que se trataria de efeito secundário na inflação. "A inflação vai continuar baixa, mas não necessariamente abaixo do piso da meta", diz o profissional de uma asset com patrimônio líquido acima de R$ 2 bilhões. A meta para o IPCA de 2018 tem centro em 4,5% e limites de 3% e 6%. "Não é um IPCA ou dois que vai mudar a política monetária. Esse BC não age de reunião a reunião", acrescenta a fonte.

Além da incerteza sobre um cenário de inflação baixa a ponto de levar a novo corte de juros, há avaliações de que o BC não contemplou integralmente em seu cenário os efeitos da recente deterioração dos mercados financeiros internacionais. O canal de transmissão do cenário externo para a inflação doméstico é sobretudo via câmbio. O dólar ainda cai 0,92% ante o real neste ano, mas já subiu 4,83% desde a mínima atingida no fim de janeiro. O Banco Votorantim lembra que o espaço para surpresas de baixa nos núcleos de inflação é menor devido à expectativa de "aceleração" nos preços dos alimentos e da "rápida" retomada da atividade econômica.

O economista Roberto Padovani diz que não se alterou a possibilidade dos efeitos secundários da deflação de alimentos e da possível propagação da inflação corrente baixa contribuírem para reduzir a inflação. Já os riscos negativos, como a frustração com a aprovação de reformas e a reversão do cenário externo, têm se intensificado.

"Embora não reconheça no comunicado, o balanço de riscos do BC piorou", afirma Padovani, que prevê "leve" normalização dos juros ainda em 2018. Nos preços na curva de juros da B3, o mercado ainda atribui prêmio de risco no que tange ao rumo da política monetária. Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) embutem Selic de 7,80% ao fim de 2018, 105 pontosbase acima da Selic atual, de 6,75% ao ano. Ao mesmo tempo, o mercado elevou de 22% para 34% a probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual da Selic em março.