ECONOMIA / 08.08.18

Copom não indica rumo do juro, mas vê quadro confortável para inflação

VALOR ECONÔMICO

Em sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) considerou que, diante do maior nível de incerteza da atual conjuntura, é importante que o colegiado tenha flexibilidade para conduzir a política monetária e, por isso, decidiu não dar indicações sobre seus próximos passos. Entretanto, os integrantes do comitê adotaram um tom levemente mais positivo, indicando que a economia pode estar superando os efeitos da greve dos caminhoneiros e da alta do dólar.

Para eles, na ausência de choques adicionais, o cenário para a inflação deve se revelar “confortável”. As informações constam da ata da reunião, divulgada nesta terça-feira, que trouxe detalhes sobre a decisão de manutenção dos juros em 6,5%, pela terceira vez seguida. Como aconteceu na reunião de junho, o comunicado publicado logo após a reunião, na última quarta-feira, não trouxe indicações claras sobre os próximos movimentos da taxa. A menção ao relativo conforto com o ambiente inflacionário foi uma novidade da ata, que apontou uma ligeira melhora no cenário de riscos para a trajetória dos preços.

De um lado, o comitê voltou a frisar que o risco de o nível baixo de inflação no passado recente se propagar por meio de mecanismos inerciais diminuiu. No entanto, chamou atenção para o “elevado grau” de ociosidade da economia como fator favorável à inflação baixa. Como possíveis fatores “altistas” para a inflação, os membros do comitê reafirmaram que permanecem mais elevados os riscos associados “à continuidade do processo de ajustes e reformas na economia brasileira” – uma referência indireta aos riscos eleitorais - e também à deterioração do cenário externo para economias emergentes.

Os membros do comitê ponderaram, contudo, que houve certa acomodação das condições financeiras nos mercados internacionais, sem deixar de reafirmar que o cenário se mantém mais desafiador, com riscos de impacto adicional para os emergentes. O Copom estima que a inflação vai fechar 2018 em 4,2%, caindo para 3,8% em 2019.

Este cenário leva em conta as projeções do mercado para os juros (que começariam a subir gradualmente apenas em maio do ano que vem, até chegar a 8% ao ano) e o câmbio (que ficaria em R$ 3,75) e contempla a continuidade do processo de recuperação da economia, mas em ritmo mais gradual do que o esperado antes da paralisação dos caminhoneiros. Ainda assim, os membros do comitê destacaram que os efeitos do movimento dos caminhoneiros sobre a inflação estão se revelando temporários, o que é corroborado pelas projeções para a inflação de julho e agosto.

Na avaliação do comitê, os núcleos de inflação estão baixos, o que na sua linguagem significa que são compatíveis com a inflação abaixo do piso da meta de inflação. O objetivo do BC para este ano é uma inflação de 4,5%, com um piso de 3%; para 2019, a meta é de 4,25%, com piso de 2,75%.

Nas duas reuniões anteriores, o Copom havia adotado uma estratégia de política monetária mais cautelosa. Em maio, deixou de cortar os juros, devido aos efeitos inflacionários da alta do dólar; em junho, retirou indicação de manutenção dos juros para as reuniões seguintes, depois de novas rodadas de alta do dólar e dos efeitos inflacionários da greve dos caminhoneiros.

Hoje, o Copom enfatizou mais uma vez a importância da aprovação de reformas, principalmente fiscais, e de ajustes na economia para a sustentabilidade do cenário de inflação reduzida e para a queda da taxa de juros estrutural. Como novidade, chamou atenção para o fato de que a percepção da continuidade dessa agenda já afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes.

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