ECONOMIA / 08.06.18

Caiu a ficha do mercado, diz Arminio

VALOR ECONÔMICO

"Caiu a ficha!", disse o ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga. Para ele, o mercado está vendo que os fundamentos mostram o país em uma tremenda dificuldade fiscal e, na política, um leque de candidatos à presidência da República que não anima ninguém. "O cardápio é muito ruim", disse ele ao Valor. Houve uma mudança de humor externo e interno e não é irracional o que está acontecendo no mercado financeiro.

Arminio não vê movimento especulativo contra o real na forte desvalorização da taxa de câmbio das últimas semanas. As mudanças de humor em geral afetam os mais fracos e "a América Latina tem 150 anos de experiência nisso", comentou. "A mudança [de humor do mercado] expôs o nosso quadro, que é muito complicado", assinalou ele, que é um dos sócios da Gávea Investimentos. Os fundamentos externos do país são bons, com as contas do balanço de pagamentos confortáveis. Mas o fiscal é muito ruim. "Se não está quebrado, o governo está vivendo do cheque especial e a dívida cresce em uma bola de neve", alertou o ex-presidente do BC. O futuro político, por sua vez, não traz a menor segurança.

Segundo ele, apesar do conforto nas contas externas, a fragilidade fiscal pode, inclusive, vir a comprometer a conta de capital do balanço de pagamentos. A combinação de contas públicas em estado lamentável com um cenário político repleto de riscos espelha a realidade do Brasil, que precisa de uma correção de rumos.

Esta correção, segundo Arminio, virá em etapas. "A campanha presidencial vai expor a posição dos candidatos em relação a esses enormes desafios, que vão exigir respostas firmes e abrangentes." Essa é uma das etapas e permitirá ao país conhecer melhor as propostas de cada um dos presidenciáveis.

Sobre as declarações do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn em entrevista ontem à noite, depois de um dia de forte estresse nos mercados de juros, de câmbio e de ações, Arminio ponderou que, como participante do mercado, não se sentia confortável para falar com mais detalhes.

Disse, porém, que sua primeira impressão é de que o Banco Central havia começado a intervir cedo no mercado de câmbio, com os leilões de swaps cambiais. O programa de intervenções do BC começou no início de maio e foi em um movimento crescente até que, ontem, Ilan anunciou que as intervenções no mercado de câmbio não terão limites.

Depois da "ração diária" e dos leilões discricionários do BC, Ilan colocou mais US$ 20 bilhões de agora até o fim da próxima semana. E se dispôs a fazer o quanto for necessário, mesmo que isso signifique superar o estoque de swaps cambiais de US$ 110 bilhões da gestão anterior do BC, sob o comando de Alexandre Tombini.

Para Arminio, trata-se de uma intervenção "pesada" que talvez tenha se iniciado de forma "prematura". Essa é uma política que costuma funcionar quando é seguida de outras respostas de política econômica, sobretudo fiscais, que o governo, hoje, não tem condições de dar "No momento não vejo resposta melhor do Banco Central do que manter o seu compromisso com o regime de metas para a inflação", disse ele, completando:

"E reagir aos fatores que influenciam a inflação, inclusive o câmbio que hoje está mascarado por intervenções relevantes". Para o ex-presidente do BC, o Banco Central não deve ter meta para a taxa de câmbio, mas deve reagir com os juros quando as expectativas de inflação assim demandarem.

Arminio esteve no centro do furacão na campanha eleitoral de 2002, quando o país estava em situação inversa: tinha superávit fiscal, mas não tinha reservas cambiais. Com FHC à frente do governo e Lula despontando como o candidato que liderava as pesquisas, foi possível construir uma transição bem menos traumática. Lula fez a "Carta aos Brasileiros" enquanto FHC concluia negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que davam ao país cerca de US$ 30 bilhões em empréstimos. Hoje, não se vislumbra condições para uma interlocução que dê alguma serenidade ao processo de transição de governo.