ECONOMIA / 12.04.18

Azevêdo alerta que guerra comercial já é uma realidade política

ESTADO DE SÃO PAULO

O comércio mundial irá registrar um aumento em 2018 de 4,4%, bem acima do esperado. Mas, diante da guerra comercial que ganha força, as retaliações podem sair de controle e acabar afetando a economia mundial e qualquer tipo de previsões. O alerta é da Organização Mundial do Comércio (OMC), que apresentou nesta quinta-feira, 12, seus números anuais.

Para o diretor-geral da entidade, o brasileiro Roberto Azevêdo, tecnicamente a guerra comercial ainda não começou, já que algumas das medidas anunciadas por governos ainda não foram implementadas e o diálogo continua. “Politicamente, acho que já estamos vendo o começo disso (guerra comercial)”, admitiu. “É isso o que peço aos membros que possamos evitar”, disse.

O desempenho de 2018 ficará abaixo da média registrada em 2017, com 4,7%. Mas, ainda assim, é considerada como positiva. Os números, porém, não consideram ainda a guerra comercial, já que os economistas da entidade admitem que não tem como saber o que vai ocorrer e quantos produtos serão afetados. Para 2019, a expectativa é de que ocorra uma perda de força nos fluxos comerciais, com uma expansão de 4%. A média ficará abaixo da tendência histórica desde 1990, mas ainda está acima do que foi registrado nos fluxos comerciais depois da crise financeira de 2008.

Mas diante da perspectiva de uma guerra comercial entre as maiores economias do mundo, a OMC alerta que os riscos são reais.

“O crescimento comercial forte que vemos hoje será vital para um crescimento econômico, recuperação e apoio à criação de empregos”, disse Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC. “Mas esse progresso importante pode ser rapidamente minado se governos recorrerem a políticas comerciais restritivas, especialmente um processo de retaliações mútuas que poderia levar a uma escalada que não poderia ser administrada”, alertou.

“Um ciclo de retaliações é a última coisa que a economia mundial precisa”, insistiu. “Os problemas comerciais nos países membros da OMC seriam melhor tratados se fossem lidados de forma coletiva”, disse. “Eu apelo a governos para que mostrem cautela e resolvam suas diferenças por meio do diálogo e um engajamento sério”, disse.

Nas últimas semanas, a proliferação de barreiras comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump levou parceiros como a China a prometer respostas duras e retaliações. Pelo menos US$ 100 bilhões em fluxo de comércio seriam afetados.

Segundo Azevêdo, a realidade é que, mesmo com medidas ainda não aplicadas, há indícios de que as hostilidades já começam a afetar ordens de importação em março. Para ele, o risco é “sério” e a situação poderia fazer a “recuperação econômica sair dos trilhos, colocando em risco empregos”.

Para o brasileiro, com uma economia globalizada, serão os mais pobres que sofrerão mais com uma crise comercial. “Ela vai afetar mesmo aqueles que não estão envolvidos diretamente”, disse.

Para 2018 e 2019, porém, a entidade admite que os riscos de fazer previsões foram elevados de forma importante desde que medidas protecionistas passaram a vigorar. As barreiras, segundo a OMC, criam “incertezas para empresas e consumidores” e poderiam gerar um “ciclo de retaliações que poderia pesar na produção e comercio mundial”.

Mudanças nas políticas monetárias de países ricos e tensões geopolíticas também poderiam representar riscos.  Diante das incertezas, os economistas da OMC acreditam que o fluxo comercial terá uma expansão em volume entre 3,1% e 5,5%.

Na avaliação da entidade, “a onda crescimento de um sentimento anti-comércio e a vontade de governos de aplicar medidas restritivas” podem barrar essa expansão.  Segundo os economistas, a “escalada de políticas restritivas poderiam levar a um resultado fora dessa faixa”. 

“Medidas recentes têm sido aplicadas a um amplo número de produtos fornecidos por um grande número de países, com contra-respostas já prometidas”, disse. “Um ciclo de escala de retaliações ainda pode ser evitado se negociações conseguirem evitar uma tensão. Mas isso não está garantido”, disse.

Para 2018 e 2019, os países emergentes devem ter um melhor resultado em termos de expansão de exportações e importações. Enquanto as economias ricas devem registrar um crescimento de 3,8% nas vendas, a taxa entre os emergentes deve ser de 5,4%.

“Entretanto, a atividade econômica também deve ser afetada pelas barreiras comerciais, o que poderia resultar em cenários mais negativos”. Para 2018, a perspectiva ainda é de uma expansão do PIB mundial de 3,8%.