ECONOMIA / 06.12.18

Ajuste fiscal nós levará a uma nova fase de crescimento, diz Luiz Carlos Trabucco

O GLOBO

Depois de 10 anos como presidente do Bradesco, o segundo maior banco privado do país, Luiz Carlos Trabuco, de 66 anos, assumiu o comando do conselho de administração da instituição no final do ano passado, um conglomerado que inclui a maior rede de varejo do setor bancário privado, uma seguradora, um banco de investimento e gestoras de fundos e corretoras. Trabuco também é presidente do conselho da Bradespar, empresa que administra as participações não financeiras do grupo e é uma das principais acionistas da mineradora Vale.

De Nova York, onde foi receber o prêmio de melhor banco brasileiro da revista especializada LatinFinance, Trabuco falou ao GLOBO sobre a ideia do novo governo de fatiar a reforma da Previdência e da chance que o país tem de trilhar um caminho de crescimento com a adoção de uma agenda liberal na economia. "Fomos ao fundo do poço e lá poderíamos encontrar duas coisas. Poderíamos encontrar uma armadilha, que iria nos aprisionar por lá, ou uma mola. Encontramos uma mola".

Uma das únicas ressalvas que faz aos planos do futuro governo de Jair Bolsonaro é o tom de confronto com a China. “O Brasil vai sempre precisar ter um olhar muito atento naqueles países que tenham capacidade de investimento”, diz.

O que senhor achou do plano do governo eleito de fatiar a reforma da Previdência?

- A postura do futuro governo dá o tom de urgência e a escala de prioridade da reforma da Previdência. O futuro governo está na fase de ampliação do diálogo, ouvindo os partidos, lideranças partidárias, discutindo os pontos programáticos, fazendo política. O elemento fundamental de todo debate será a apresentação do projeto. Vamos aguardar a consolidação da estratégia, conhecer o ponto de partida e o ponto de chegada. Esta pode ser uma agenda positiva de grande valor para criar as expectativas sobre o futuro do Brasil.

A reforma da Previdência não sofrerá resistências no Congresso?

- A nova configuração do Congresso surge após a discussão de uma agenda. Acredito que haverá uma convergência de objetivos. O Brasil tem problemas, mas não é um país problemático porque temos os nossos bônus, que podem ajudar na travessia. Falo das décadas em que o crescimento do PIB per capita tem sido muito baixo. Qualquer geração de emprego e formalização do trabalho envolve milhões de brasileiros, com consequências positivas no mercado de consumo, que tem grande potencial. O Brasil pode ser um país de classes emergentes. A infraestrutura brasileira, muito ruim, também pode ser vista como um bônus, no sentido que pode atrair muito investimento. Baseados no consumo e na infraestrutura, podemos ter uma fase de crescimento mais sustentável.

A economia brasileira está vivendo uma retomada lenta após anos de recessão. O que deve ser feito pelo governo eleito para destravar o crescimento?

- Estamos saindo do que chamamos de um ciclo muito duro no crédito, depois de um processo recessivo. A recessão foi causada por escolhas equivocadas, uma oneração muito forte do Estado. Acreditou-se que o Estado poderia ser o motor do crescimento econômico. Evidentemente, não foi o que aconteceu. O PIB recuou quase 10% e, o que é pior, com efeito negativo no poder de compra da população. Com isso, o consumo caiu e vimos o fechamento de mais de 200 000 lojas somente em shopping centers. Fora isso, vimos a nossa taxa de investimento cair, chegando a 14% do PIB, o que quer dizer o mesmo que nada em termos de crescimento sustentável. Fomos ao fundo do poço e lá poderíamos encontrar duas coisas. Poderíamos encontrar uma armadilha, que iria nos aprisionar por lá, ou uma mola.

Na sua opinião, encontramos uma armadilha ou uma mola?

- Encontramos uma mola. Com a mudança de governo, as expectativas positivas foram renovadas e houve uma mudança do modelo econômico, principalmente quanto ao papel do Estado. Esse novo nível de confiança já está reconhecido pelos mercados. Isso fica claro na cotação do dólar e nos índices do Ibovespa e do risco Brasil. Esse otimismo está baseado em dois pilares: confiança e esperança. O Brasil está voltando a crescer. Ainda de forma lenta, mas consistente. A inflação está sob controle e os juros refletem esse momento.

O senhor está de acordo com a agenda do governo eleito, que inclui controle fiscal, privatizações para abater a dívida pública, a simplificação tributária e a abertura da economia?

- Todos nós queremos que o Brasil seja um país vencedor. Hoje temos direcionadores de crescimento que são um consenso na sociedade brasileira e foram sancionados pela votação do novo presidente. Mas é um caminho duro. O ajuste fiscal é o que vai nos levar a uma nova fase de crescimento. Precisamos ter um choque de credibilidade que é a retomada da capacidade de o Estado ser superavitário. Isso vai permitir ao governo investir no social e na área da segurança. Esta concepção nova que será implementada no Brasil é acreditar que o Estado, por mais forte que ele seja, não é um gerador de emprego. O que gera emprego é crescimento. O que gera crescimento é a taxa de investimento. O Brasil tem um Estado que despoupa por causa do déficit fiscal. As despesas não casam com as receitas. Por isso, a dívida pública cresce.

Os investidores privados estão com apetite para colocar dinheiro em projetos de infraestrutura no Brasil?

- Sim. Desde que tenhamos respeito a contratos e taxas de retorno adequadas. Com essas condições, o Brasil é uma ótima oportunidade de investimento. De todos os países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), o mercado brasileiro é o que oferece as melhores condições. Deixamos a inflação para trás, trocamos o modelo econômico, somos uma sociedade democrática, cada vez mais atilada com a vigilância da corrupção. Além disso, agora queremos abrir a nossa economia para o mundo. Isso tudo atrai os investidores. Eles nos olham com expectativas. A única pergunta que os investidores fazem é até quando o Brasil vai ser o país do futuro. Esse futuro, às vezes, demora para chegar. Agora temos a oportunidade de reescrever essa história.

Em várias partes do mundo, o Estado tem um papel relevante nos investimentos em infraestrutura. O senhor acredita que é possível o Brasil dar um salto qualitativo nessa área apenas com o capital privado?

- Se não tivéssemos o déficit fiscal, poderíamos usar a estratégia tripartite, na qual o Estado fica com uma parte, o setor privado nacional com outra e o setor privado estrangeiro com o restante. Mas, com as contas públicas do jeito que estão, isso é mais desafiador. É por isso que temos que recuperar a capacidade de o Estado poupar. Estamos agora reinventando um novo modelo de governar. A oportunidade é que estamos com alto nível de confiança. E isso requer capacidade de entrega. Para isso, o executivo e o legislativo devem ter uma pauta comum. Estou certo que o nível de consciência dos problemas brasileiros, falo de temas como desemprego e insegurança, atingiu o ponto mais alto.

O senhor não está sendo exageradamente otimista?

- Não. O pessimista sempre se baseia em amarras do passado. Quando o país acredita que pode ser protagonista de uma nova fase, aí começa a construir o futuro.

O senhor apoia o debate sobre a independência do Banco Central?

- O BC brasileiro tem tido autonomia, mas a independência seria uma sinalização de que a política monetária estaria blindada dos ciclos políticos. Isso seria saudável porque dá credibilidade diante dos mercados. Sem contar que essa medida é parte dessa visão mais liberal após décadas em que houve uma maior ou menor intervenção na economia. Estamos atravessando um momento histórico. Temos a possibilidade de ultrapassar fronteiras. E pensar grande.

Olhando pra frente, o que pode dar errado?

- Não podemos perder tempo. O senso de urgência nesta fase é importante. Temos que blindar o Brasil de ventos que podem vir dos ajustes da política monetária no mundo. O Brasil perdeu o melhor momento para fazer o ajuste. Falo da época em que havia liquidez farta no mundo. A liquidez ainda é farta. Mas naquela época após a crise de 2008, quando governos nos Estados Unidos, na Europa e Ásia faziam a recompra de títulos, havia uma liquidez excepcional. Isso porque as taxas de juros caíram para zero. Agora temos um cenário mais desafiador. A taxa de juro básica nos Estados Unidos, que estava ao redor de 1%, já está acima de 3%. Isso tudo torna mais urgente nós encararmos a nossa grande batalha que é o déficit público. Raras vezes no Brasil a gente conseguiu engatar um processo de crescimento sustentável com geração de renda e o aumento do PIB per capita. O que vai reduzir desigualdade no Brasil é o aumento do PIB per capita. Não tem outra forma. Sem isso, vamos continuar tendo dois Brasis.

A Bradespar é acionista da Vale. O senhor defende a permanência do Fabio Schvartsman à frente da empresa?

- Ele está fazendo uma excelente gestão na Vale, ainda tem um mandato a cumprir e o meu sentimento é que existe um consenso entre os atuais acionistas que ele é a melhor opção que a Vale tem.

As declarações do governo eleito de adotar uma política de maior confronto com a China, o maior mercado da Vale, preocupam?

- Não tem uma preocupação, mas é evidente que, em política externa, sempre vale aquela frase que a gente alinhamento de interesses comerciais. Neste ponto, acho que haverá entendimento que mais que amigos os países têm parceiros comerciais. O Brasil vai sempre que ter um olhar muito atento naqueles países que tenham capacidade de investimento. Os países asiáticos têm taxas de poupança interna que chegam a 40% do PIB e, portanto, são exportadores e capitais. Esses países podem nos ajudar muito a elevar a nossa taxa de investimento.

 

Santander é processado por negligência na contabilidade de fundos de investimento

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acusa o Santander, a Santander Securities (empresa de custódia ligada ao banco) e cinco ex-executivos do banco por negligência na contabilidade de fundos de investimento administrados pelas instituições. Segundo processo ao qual O GLOBO teve acesso, para a área técnica, as irregularidades representam "conduta mais ampla", um "verdadeiro modus operandi" que é "pautada pela negligência no trato com a entrega das obrigações periódicas dos fundos".Segundo os técnicos da CVM, o Santander deixou de apresentar diversos documentos obrigatórios sobre os dados de fundos de investimento em participações (FIPs), que aplicam em empresas de capital fechado. Costumam aportar nesses fundos grandes investidores institucionais, como fundos de pensão e gestoras. Em alguns casos, os documentos eram apresentados sem notas explicativas. No caso das demonstrações contábeis anuais, um dos documentos obrigatórios, algumas delas não tinham o parecer do auditor independente, chancela que é exigida pelas regras da CVM. Em outros casos, foram apresentados documentos que nada tinham a ver com as demonstrações contábeis necessárias.

A CVM concluiu que, entre junho de 2007 e dezembro de 2014, foram identificados 245 documentos incompletos, errados ou ausentes nas demonstrações de 81 FIPs administrados pelo Santander e pela Santander Securities.

Ausência de controle adequado

"De forma recorrente e ao longo de extenso período de tempo demonstraram não possuir mecanismos adequados de controle interno que permitissem identificar falhas no cumprimento de suas obrigações informacionais para com os cotistas dos fundos", afirmou no termo de acusação o superintendente de relações com investidores institucionais da CVM, Daniel Maeda.

Para a CVM, as irregularidades representavam "um verdadeiro modus operandi" das instituições, e os executivos que estavam à frente da administração de fundos à época das irregularidades contribuíram para os problemas.

 

"É possível perceber que as infrações cometidas decorrem de atos de natureza institucional do banco Santander e da Santander Securities, ou seja, representam um verdadeiro modus operandi das instituições sobre as quais os diretores responsáveis pela atividade de administração de carteiras de valores mobiliários não podem alegar ignorância, e para o que, de certo, contribuíram", acrescentou a acusação.

Segundo a acusação, ao longo do processo o Santander alegou em sua defesa que a CVM nunca antes havia questionado a contabilidade dos seus fundos, sequer para solicitar a apresentação de notas explicativas. Para o banco, os problemas que ocorreram foram resultado de "falhas operacionais que já foram corrigidas" e foram "de natureza meramente formal, sem que houvesse prejuízos ao mercado ou para os cotistas desses fundos". Acrescentou ainda que os problemas teriam sido corrigidos depois da investigação.

Procurado pelo GLOBO, o Santander negou, em nota, que tenha havido negligência, "tanto que todos os documentos obrigatórios já foram entregues à CVM".

“A defesa foi apresentada, afastando as alegações ponto a ponto, e aguarda julgamento”, completou a nota.

A acusação foi formulada no fim de maio, e a CVM aguarda agora eventual apresentação de termo de compromisso pelos acusados. Ao GLOBO, o Santander não precisou se planeja propor acordo para encerrar o processo.