ECONOMIA / 08.08.18

Ajuste fiscal 'é o que está no cardápio' , diz Arminio

VALOR ECONÔMICO

O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga disse ontem que, independentemente dos resultados nas urnas, o país não poderá se esquivar de fazer o ajuste fiscal. "O maior problema hoje é não tomar decisões difíceis, o que pode acarretar sacrifícios maiores. Muitas vezes a gente ouve: 'vamos fazer o ajuste fiscal ou ser felizes?' Não tem isso no cardápio. O que está no cardápio é fazer o ajuste e não mergulhar numa crise mais profunda", afirmou o economista, após participar de debate no GovTech Brasil - evento em São Paulo para discutir o papel da inovação e tecnologia na construção de governos eficientes.

Segundo Arminio, "em passado não muito distante", o Brasil seguiu na direção oposta. "A partir de um discurso populista, tomamos o caminho das péssimas políticas públicas e deu no que deu. O país está aí quebrado, com desemprego alto, um sofrimento enorme, quando deveríamos estar crescendo", observou.

Arminio destacou que, no ambiente atual, com recrudescimento desse populismo, é preciso passar para as pessoas a sensação de que elas têm oportunidades. Estimular o sentimento de solidariedade e de contarem com uma rede de proteção. "Esse é o nosso maior desafio. O mercado fez muitos avanços, mas está perdendo no campo da felicidade geral das pessoas", disse o fundador da Gávea Investimentos. Ao abordar as perspectivas para a inovação no país, o ex-presidente do BC foi taxativo ao dizer que a parceria entre o governo e o setor privado não tem sido bem-sucedida.

O "ecossistema" brasileiro, pontuou, ainda favorece "predadores", com a captura do Estado por grupos de interesses. "Há um desequilíbrio. E, nesse campo, o terceiro setor tem estado à frente de iniciativas interessantes", ressaltou o economista. As reformas necessárias ao crescimento, segundo Arminio, dependerão da qualidade do debate político nos próximos 60 dias, período que precederá a sucessão presidencial: "Se alguém se eleger em cima de uma plataforma realista, que encare os problemas do país, as chances de algo acontecer no campo das reformas aumentarão imensamente. Não só em tecnologia, mas nas áreas básicas: educação, saúde, meio ambiente, segurança."

O ex-presidente do Banco Central disse que somente será possível ter uma visão melhor das opções entre os candidatos daqui a um mês, quando eles estiverem se posicionando melhor sobre os assuntos. "Se não conseguirem apresentar propostas concretas a partir de diagnósticos rigorosos, minha impressão é que vamos ficar sofrendo. Mas está um pouco cedo e não quero prejulgar ninguém.

As pessoas podem ter uma história de adesão a ideias ou modelos equivocados - e temos muito dos dois no Brasil -, mas de repente mudam. Vamos ver", ponderou. Presente ao debate, o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e atual presidente do Insper, defendeu que é preciso discutir o que classifica como apego da sociedade e do mercado brasileiros a projetos mal sucedidos.

Segundo ele, a pobreza no país, em parte, tem relação com a prática de socorro financeiro aos negócios que dão errado. "O Estado tem que proteger menos indústrias atrasadas", afirmou Lisboa, ao defender o fim das atividades de empresas ineficientes: "Não deu certo? Fecha e vende os ativos. Não tem que gastar mais dinheiro", disse o economista.

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