ECONOMIA / 04.06.18

A realidade do Brasil é uma, a do setor privado é outra, diz Luis Moreno

VALOR ECONÔMICO

"A realidade do Brasil é uma, e a do setor privado é outra", disse Luis Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sobre as dificuldades que o país enfrenta. "O Brasil é o único país da América Latina que tem esse tamanho, essa escala e tantos empreendedores tecnológicos. O setor privado está animado, sabe das dificuldades do Brasil e o que tem de mudar."

Moreno conversou com a coluna na quarta-feira (30), quando a paralisação dos caminhoneiros ainda não havia se encerrado.

"Essa greve é terrível. Mas o Brasil nunca chega a extremos", afirmou ao comentar sobre rumos que o movimento poderia tomar. "Por que as pessoas não estão nas ruas? Porque a inflação está baixa, mesmo o desemprego está caindo um pouco, e há muitos empreendedores", responde.

Pelo BID, Moreno conheceu vários presidentes brasileiros. Prefere não comentar especificamente sobre nenhum.

"Mas, diria que quando pensamos que estava tudo bem, não estava tão bem, e quando pensamos que está ruim, não está tão ruim", afirmou bem-humorado.

INVESTIMENTO

Caiu nos anos de recessão porque, em razão da responsabilidade fiscal, os estados não tinham as contrapartidas para tomar empréstimos do BID. Nossa carteira é de US$ 12 bilhões (cerca de R$ 45,1 bilhões) no setor público e de US$ 1.3 bilhão no privado, que cresce muito rapidamente.

Esse valor é o maior do BID na América Latina, e sempre foi.

Fiquei impressionado, vocês têm um ecossistema de inovação de porte mundial. E ao mesmo tempo, têm uma Embraer. Mas ainda resta o desafio de melhorar a qualidade da educação.

TENDÊNCIAS NA REGIÃO

Vemos um regresso ao centro: Argentina, Chile, Peru, Costa Rica. Na Colômbia, [onde falta o segundo turno das eleições] deve caminhar nessa direção. No Brasil e no México está difícil antecipar o resultado. Mas as instituições brasileiras demonstram que se pode ter qualquer tipo de governo, que a institucionalidade tem o controle político.

Foi uma evolução importante também para a economia: autonomia do Banco Central e regras fiscais que vocês têm.

CORRUPÇÃO

O problema número um na América Latina é segurança, o número dois é corrupção, segundo o Latinobarómetro, que pesquisa em 18 países.

A grande corrupção vem do financiamento político. O escândalo da Odebrecht mostrou a fragilidade dos nossos países. Será a grande questão ainda nos próximos dez anos na região.

NAFTA E TPP

A Parceria Transpacífica (TPP), como se sabe, foi assinada em março no Chile, com todos os países, menos os Estados Unidos. Nafta tem dificuldade de negociação e o calendário político não ajuda: eleições no México em julho, em novembro no Congresso americano, e em províncias do Canadá.

É uma oportunidade para acelerarmos a integração, a conversa da Aliança do Pacífico com o Mercosul. Há mais de 30 acordos na América Latina, com normas diferentes, o que não beneficia o comércio.

GREVE DE CAMINHONEIROS

Não há dúvida de que terá um impacto imenso na economia. O trimestre será afetado. Também na Colômbia há dois anos, caminhões pararam o país. Eles têm tanto poder porque não desenvolvemos um sistema multimodal, usando rios e ferrovias.

Se tiver, os custos baixam e a capacidade de chantagem diminui. Daqui a alguns anos, difícil que isso venha a ocorrer. Um grande número de caminhões não terá motorista.

INVESTIDOR ESTRANGEIRO

O Brasil é o que recebe mais investimento na região. O investidor de longo prazo vê a sexta economia do mundo fazendo reformas, um mercado de consumo gigantesco.

Uma empresa global não tem alternativa, tem de estar no Brasil. O combate à corrupção é muito admirado. Leva à Justiça, não importa quem.